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10/04/2005

A CARNE

“A carne mais barata do mercado é a carne negra...” - Na poderosa voz rouca da sensacional Elza Soares, o grito denuncia fatos, o canto imortaliza o verso de A CARNE, faixa ímpar do disco DO COCCIX ATÉ O PESCOÇO, lançado no ano de 2002. Um vídeoclipe, MARAVILHOSO e um artista INACREDITÁVEL”. De tão nobre inspiração, me veio o comentário que segue.

Um tema delicado. Porém, em meio a um papo comum de mesa de bar, embalados pelas notícias recetemente veiculadas, de discriminação racial no mundo do futebol, questionaram-me quanto à imprensa brasileira e aos tantos ícones da televisão que, invariavelmente, ao entrevistarem um negro celebre (nesta ordem de visão - o negro antes de celebridade, é NEGRO), de qualquer ramo de atividade, iniciam ou permeiam as suas perguntas, com a questão dos “preconceitos” raciais no nosso país. Enfim. Existe discriminação racial no Brasil?

INFAME e DESCABIDO é o questionamento. Abordei, doutra feita, a questão nesta página, falando do Festival de Cinema de Gramado, diante da abominável colocação do presidente do júri, o não menos RUBENS EWALD FILHO, crítico de cinema, acerca dos resultados da premiação, que apontaram o filme “AS FILHAS DO VENTO”, como o grande vencedor do ano (confira abaixo, no post de 04/09/2004).

Ora Cidadão! Ponderei. Não se há que fazer muito cálculo ou alarde, bastando pensar que, partindo do genocídio de índios com a chegada dos portugueses em 1500 (que nos ensinaram a chamar de DESCOBRIMENTO DO BRASIL), com o desembarque dos carregamentos de negros africanos (nestes termos: MERCADORIA HUMANA capturada na África e DESUMANIZADA desde o desembarque no Brasil, sob chicote e carimbo - ferro em brasa com a marca do proprietário) e caminhando suavemente pela história até 1888, quando (legalmente) se pôs termo ao regime escravocrata no Brasil, para dali até aqui, verificar em análise singela e rasteira: 1) Quantos anos contamos de escravidão do negro? 2) Quantos anos contamos, pós regime escravocrata? 3) Quantos anos contamos da presença do negro, renegado à margem da sociedade? Basta! Não há falar em “pré-conceitos”. Tratamos, sim, de conceitos formados e muito bem enraizados, e de uma discriminação velada e cruel, que imobiliza a vítima com o seu riso cínico e castrador.

Caminha a humanidade, predadora da própria espécie. No cinema, materializou-se o bem, no mocinho de cara pálida e traços perfeitos (moldes convencionados de perfeição). No espetáculo de horrores da guerra travada contra o mal, registrada ao mundo via satélite e que se estende pelo tempo, famigerada e perversa - “Deus” e o “Diabo” têm selo e bandeira e, a simples herança genética de traços comuns daquela região do oriente, condena o indivíduo mundo afora, à sanha político-religiosa dos ditadores e dos nossos distorcidos conceitos ocidentais.

Do lado de baixo do Equador, a miséria silente é arma de extermínio mais que precisa e que dispensa a tecnologia bélica. Não me atenho aos conceitos prévios - desacredito-os por desmerecerem crédito - mas, veja bem, se de um lado a ganância e a crueldade dos conceitos sociais, enraizados ao longo dos tempos; rezados pelos credos (bem guardados no tacão da igreja); difundidos pelos livros e por todas as formas de conhecimento e cultura, segregou etnias e as renegou aos guetos, doutra parte, a desigualdade social; a miséria comum aos terceiro-mundistas, faz gritar muito mais alto o poderio econômico e este, por si, demove torres de concreto - Quem (no Brasil) se importa com a cor do peito do pé do(s) Ronaldo(s), ou se é preta a pele de Pelé?... O vale quanto pesa, é fato e fator cial.

Somos todos da raça humana e isso basta - ou nos deveria bastar. Prevalecem as diferenças entre dominantes e dominados. Prevalece uma minoria concentradora da riqueza mundial, contra uma imensa massa miserável e multicor, cuja condição persiste e se agiganta, sustentada nos nossos moldes e conceitos, e na ganância do homem de sempre - Mundo animal, sim senhor!

O fato, é que não se deve esperar soluções milagrosas ou imediatas. Não se muda uma cultura da noite para o dia, mas, conscientizar-se não é prender-se ao passado ou render-se às lamentações. Tampouco será aguerrir-se, armar-se contra o mundo, endurecendo o espírito em constante auto-defesa. Ter consciência é, sobretudo, sabendo onde se quer chegar; tendo conhecimento do caminho trilhado e certeza do espaço conquistado, traçar as metas para o objetivo pretendido e perseguí-lo, obstinadamente. Conhecimento, direcionamento, trabalho e tempo. É importante ter um olho no passado, SIM, mas é IMPRESCINDÍVEL ter uma meta no futuro - SEMPRE!

“A carne mais barata do mercado (?)...”

Até a próxima!


Escrito por Fernão Paulino Netto às 18h24
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