Chiliquento.com

05/03/2005

Comemorando o primeiro aniversário do Chiliquento.com, na PANELA DE EXPRESSÃO o texto “A TELEVISÃO ME DEIXOU...“ marca o meu retorno às publicações, que é dedicado aos meus amigos internautas, que eu tanto estimo e considero. Após necessárias férias, de volta, com o carinho de sempre e uma saudade imensa,

Fernão Paulino Netto

 

A TELEVISÃO ME DEIXOU...

“...Burro. Muito burro, demais” - bradavam os TITÃS. Isso pelos idos dos anos oitentas. Cabeças pensantes faziam arte e vociferavam “verdades” a um povo ávido de manifestações. Tenho, às vezes, a impressão de que, diante da exaustão, calaram-se todos ou deixaram de pensar. É como se apenas alguns poucos, irrequietos como eu, continuassem gritando aos ventos - ou às paredes, obviamente.

A música dos Titãs, então constatação, nos meus ouvidos de menino, já soava como sentença. Uma predição que reverbera hoje e me faz temer os próximos vinte ou trinta anos.

Sempre que tento entender os rumos dessa Nação, inevitavelmente, me deparo, pasmado, com a TV e o seu poderio escandaloso. O povo brasileiro está umbilicalmente ligado a tal telinha. Irremediavelmente impregnado, contaminado, viciado do seu poder.

O mundo desmoronando e, renitente, me vem o Jô (Soares, é claro) - ...a solução é muito simples, pois, se o telespectador tem nas mãos o controle-remoto, idem a programação da tv, sob o seu comando - declara o global, lá pelas onze e meia - Não gostou, é só trocar. Simples assim. - Simplista por demais e até cínico, diria eu. Ouso, pois, discordar da sumidade, sem sequer estender-me muito pra tanto.

Tão igualmente simplista, comparo o telespectador a um faminto, que tem nas mãos, um extenso cardápio de um só prato - “Peça pelo número”! - Odeio muito tudo isso!

De domingo a domingo, pulamos de uma criatura aloirada pra outra e é tudo tão ruim quanto. Programas reeditados, com mirabolantes fórmulas que conseguem piorar o que já era uma desgraça; As mesmas caras plastificadas; O apelo constante à sexualidade - como piada, inclusive; O sensacionalismo (apresentado por “respeitados” nomes do telejornalismo); Os shows de macaquices nas tardes de domingo. Fofoca sobre a vida de “artistas”, na boca podre do Nelson... (pensar que até a Irmã Dulce morreu...); As novelas, então, com seus belíssimos elencos, muito próximos dos televisivos mexicanos. Festejos ao Maneco, é claro, preferido da tal namoradinha do Brasil, sempre a nos brindar com os seus novelões que, ao começar, apontam para... No meio do caminho, desandam em... daí pro fim, entrega na mão de Deus, pra ver onde tudo vai desaguar e, como Deus nada entende de telenovelas, “perdoai-o, Pai”!

Vejo tv pra me divertir e não pra pensar” - dito comum entre os populares. Pois bem. A televisão, com a força da sua invasão assentida aos lares brasileiros, é o meio de informação (?), diversão, contato com o mundo externo, que ainda dispõe o assalariado cidadão. O cabra, engolido pela engrenagem dos grandes centros ou pela simples rotina do mais longínquo cafundó, consome o que lhe é servido, largado diante da tal telinha - E o que vem? - FEIJÃO!

Também simplista, é a linha de raciocínio da indústria da televisão. Fato é, que o povo brasileiro, na sua maioria, é analfabeto (revendo o conceito de analfabetismo, sob prisma meu, refiro-me à capacidade intelectual). Munida disto e travada a batalha pela pontuação no IBOPE (maldito seja!), necessita a indústria, trabalhar uma programação voltada para este público; o que implica algo, cuja intelecção, não requeira grandes elucubrações - conclui o homem de televisão.

Contrariamente ao distorcido discurso de alguns televisivos, formadores de opinião (inclusive), não se pretende transferir à tv aberta, a função de educadora, em substituição ao papel próprio do Estado. Nisso nem há falar, pois, de fato, não lhe compete. O que se tem em mente, entretanto, é a contribuição da tv à formação cultural, enquanto veículo que (des)informa e que, mais do que palavras, detém a força da imagem, levada a um público habituado a absorver mensagens, sobre as quais, por incapacidade, não discerne. Público este que, sócio-culturalmente desinteressado e economicamente desfavorecido, desapegou-se e alienou-se da busca por outras fontes de conhecimento.

E desse despreparo cultural; dessa inércia social; dessa indolência ante o tempo e o espaço em que vive, se servem a mídia, a política e as classes sociais dominantes. O poder se fortalece e aí, tememos ambos os gumes da faca.

“O poder tem dentes de ferro e ferrugem na boca fétida, que regurgita pro nosso consumo”.

- ...Tudo tão terrível assim? - Sim. Mas não tão somente. Claro que nos restam grandes, raras, louváveis e encantadoras opções na tv aberta, as quais, poderia eu enumerar nesta página, sem dispensar muitas linhas de escrita. Mas delas, trataremos noutra oportunidade.

“Tô nem aí... Tô nem aí...” - diz o hit que compõe a trilha sonora da série de tv, criada para “espelhar” a moçadinha que vem chegando à idade adulta, e isso me remete a um outro verso dos oráculos Titãs, em seus temíveis presságios - “...Agora, todas as coisas que eu penso, me parecem iguais”... - Que pena!

Até a próxima!


Escrito por Fernão Paulino Netto às 17h04
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