Chiliquento.com

06/12/2004

Tributo ao Segundo Sol

...que eu fui lá fora e vi dois sóis num dia

e a vida que ardia sem explicação

Não tem explicação Não tem

Não tem

(Nando Reis)

“...Deus é um cara gozador. Adora brincadeiras...” - Se Deus é ou não brasileiro, não sei. Mas o Chico (Buarque) tem razão - é um cara gozador...

Um salto no vazio de olhos vendados. Abismo. Vertigem. Um misto de tudo isso me invadiu e foram essas as sensações que carreguei, por muito tempo. Hoje posso falar de Cássia Eller - sem sofrer.

"Quando eu era criança, queria fugir com o circo...”Justo a década que produziu o maior acúmulo de lixo na música brasileira (anos noventas), com a ascensão dos grupos de pagode; duplas caipiras (...e quem dera uma espingarda de dois canos - como diz a Rita Lee); dança disso; dança daquilo; axé music; rap, e sei lá mais o quê, trouxe-nos, também (e graças a Deus) uma das figuras mais fortes e mais cativantes de toda a nossa história musical - Cássia Eller.

INOVADOR, foi o meu primeiro conceito, ao ouvir no rádio, a voz dum cara cantando “rock” em português (rock brasileiro), com uma força de interpretação que jamais se viu, dos cantores nacionais. Mas, um amigo tocou-me o ombro e disparou: - Não é um cara, não. É uma mulher. Fiquei ali (com a minha cara de “UÉ!”), aguardando até o final da faixa, pra saber de quem se tratava e, uma série de outras execuções após, anuncia o locutor: - ...Você ouviu ~Por Enquanto~ (de Renato Russo), com Cássia Eller. Não entendi muito bem, mas já amei o atrevimento. Mais adiante, num vídeoclipe do Fantástico (TV Globo), a imagem marcante da tal mulher, ao lado do cantor Edson Cordeiro, interpretando “I can’t get no” (Mick Jagger), num dueto explosivo e inaudito, seria-me mais um choque. Sublimar! Eu nunca mais ouviria rock do mesmo jeito, ou com os mesmos conceitos.

Não traçarei (nem poderia) qualquer comparativo com as “Divas” da MPB ou do Rock, de hoje ou de ontem, daqui ou de qualquer parte do mundo, porque descabe comparar. Não se aquilata o brilho.

Por outro lado, difícil falar em “Diva”, quando me reporto àquela figura singela, de quem tive a oportunidade (e o prazer) de alguns instantes de conversação, e que se mostrava tímida, comum, despojada e totalmente constrangida diante de qualquer elogio (...rasguei-lhe todos - obviamente). - Pô! Tu tem a maior cara de músico... - foi a primeira frase que eu ouvi, embevecido. Deslumbrantemente talentosa e especial, fadou-lhe a vida ao sucesso.

O verbo rasgado e destemido, a postura de palco, a força da interpretação, a expressividade, a inquietude, a singeleza, os atrevimentos, a timidez, o desprendimento e a empatia com a juventude, magnetismos que lhe fizeram singular, somados a uma voz única, que não parecia com nada do que está aí, mudou a sonoridade da cantora brasileira e nos deu anos de pleno encantamento.

Embora “Malandragem” de Cazuza e Frejat, tenha sido a música mais executada de sua carreira - um marco e um hit da geração - Nando Reis foi o responsável pelas mais belas composições, imortalizadas na voz de Cássia Eller. “Segundo Sol”, carro-chefe do álbum “Com você... meu mundo ficaria completo” (Universal Music - 1999), é exemplo perfeito da grandiosidade do trabalho do compositor, cuja obra - ele afirma e nós endossamos - tinha identidade perfeita com a arte de Cássia. Também sob medida para a sua voz e enriquecidas pelos belíssimos arranjos do “Acústico MTV” (fevereiro/2001), são as canções “Luz dos Olhos” e “Relicário”; desta última, os versos - “... o horizonte anuncia com o seu vitral/ que eu trocaria a eternidade por essa noite...” - pura maestria!

"...botei botões na sala, na mesa, na tv, no sofá..."Na faixa “Maluca” (Luiz Capucho), do disco “Com você...”, uma Cássia Eller romântica e doce, inspira o que adiante seria os cenários do show Acústico MTV, em versos como estes: “Eu fiquei maluca / por flor tenho loucura / eu fiquei maluca...” e coroando o seu bom momento, a frase dita por Cássia ao diretor da equipe técnica, durante os ensaios do espetáculo, traduz um desejo, no mínimo inusitado: “Quero ficar linda essa noite...” - e estava encantadora.

“A novidade que seria um sonho / virava um pesadelo tão medonho...” - (por Gilberto Gil). Ficou no peito, a desesperança de uma saudade e, na boca, o doce-amargo de quem teve a felicidade de vivenciar e se apaixonar, por um momento (um artista) único da música brasileira. Único e breve.

“Non, je ne regrette rien” (Edith Piaf)


> TRIBUTO AO SEGUNDO SOL, continua no dia 29/12. <

Fernão Paulino Netto


Escrito por Fernão Paulino Netto às 06h21
[] [envie esta mensagem]


05/12/2004


 

     PUTZ!!!     

Dizem que a justiça é cega. Mas, ao que me parece, a de São Paulo, anda cega, surda e desnorteada - ao menos, ao que me parece. Vejamos, pois.

Em matéria levada ao ar na última sexta-feira (04/12), a sempre competente equipe do Globo Repórter, traz a denúncia do caso “Cidade Ademar”, chacina ocorrida em 21 de abril de 2004. Os depoimentos que seguem, apenas em recorte, têm a função única de balizar o entendimento dos fatos, lastreando o comentário que segue.

Cidade Ademar, Zona Sul de São Paulo. Madrugada de 21 de abril de 2004. João Marciano da Silva, o Nenê (47 anos); Ednei Santos da Paz (23 anos); e Renato Nery Cristóvão (18 anos), foram barbaramente assassinados a tiros.

“Nem percebi quando o carro chegou perto, não deu para escutar o barulho. Quem desceu do carro foi Marcelino. Ele encostou o Ednei na parede e atirou” - relata um sobrevivente - “Enquanto ele atirava, o Renato correu e sentou na esquina. Acho que ele não acreditou no que tinham feito. Jailson se aproximou do Renato, apontou o revólver e começou a atirar. Ele morreu assim - sentado.”

“Foi bastante tiro - ao todo 16 atingiram as vítimas, segundo esclarecimentos da polícia técnica - Eu chorava muito, parecia que estavam matando alguém da minha família” - diz a testemunha. - Levei coronhadas em dois lugares da cabeça. Acho que eu não morri porque a munição deles acabou” - comenta.

Presos em flagrante, os vigilantes particulares Marcelino Lopes dos Santos (28 anos), e Jailson Alves Amaral, (36 anos), que atuavam clandestinamente na área, foram acusados de triplo homicídio, tentativa de assassinato, lesões corporais e porte ilegal de arma.

“As armas tinham marcas de sangue e ainda estavam quentes” - diz o investigador Miranda e acrescenta: “Nenhuma das três vítimas tinha antecedentes criminais”.

Seguem assim, em profusão, as descrições sangrentas dos fatos passados naquela madrugada. Penso que seja o suficiente. De resto, a quem interessar, o texto encontra-se disponível, na integra, no site da emissora.

INDIGNAÇÃO! O fato é que, passados quarenta e oito dias da prisão “em flagrante” dos autores da chacina, Jailson Alves Amaral, é posto em liberdade, por decisão do Juiz da Primeira Vara do Tribunal do Júri de São Paulo, segundo noticiário veiculado pela emissora de televisão, em rede nacional, sob a argumentação de que “o réu apresentava arma legalizada e não tinha antecedentes de crimes violentos. Insatisfeito, o mesmo Juiz que determinou a expedição de alvará de soltura, decretou a quebra de sigilo telefônico do réu e, em virtude disto, atribuiu segredo de justiça ao caso. Perceba e PASME - Só para esclarecimento, uma vez decretado o segredo de justiça, só os Advogados e, no caso, o Ministério Público, têm acesso aos autos do processo. Ou seja, Jailson Alves Amaral, assassino confesso, foi posto em liberdade, em 08 de junho, p.p., e desse fato nada se sabia. Caíram das nuvens as vítimas sobreviventes, quando noticiadas através da imprensa - e somente através da imprensa - quanto aos perigos que corriam desavisadamente.

Ora, imaginem se de repente, toda a sociedade, na contramão de toda a campanha feita pelo Governo Federal, resolvesse armar-se (de forma legalizada - é claro) e assim saísse às ruas... Estaríamos todos autorizados a exterminar quem nos pisasse o calo? Sim, pois esta foi a argumentação de uma AUTORIDADE - principalmente porque não temos antecedentes de crimes violentos.

Ocorre que, o “curriculum” do marginal, beneficiário da decisão da Justiça de São Paulo, é um pouco mais extenso. Ao menos pelo que se sabe, conforme informado pela imprensa, Jailson responde a processo no Município de Ourucuri - Pernambuco, acusado de ter tentado matar a mulher a facadas, em 21 de março de 1993 - isso até onde se sabe.

“Tomando ciência, pela imprensa, da prática de outro delito em outro estado, nós podemos imediatamente juntar esse documento, que serviria, em sede de recurso, para sensibilizar o Tribunal, de que a decisão do Magistrado é absolutamente equivocada” - Isso, nas palavras do Promotor de Justiça, pego no contrapé pela equipe de reportagem.

“A polícia vai e prende. A Justiça vem e solta ...” - versos cantados pelo poeta Juca Chaves, nos idos dos anos oitentas - e incrivelmente atuais. A sociedade pede respeito, diante desse espetáculo de DESCASO, INCOMPETÊNCIA E INOPERÂNCIA.

Os fatos aqui narrados, foram desfechados com a prisão de Jailson Alves Amaral, por determinação da Justiça de Pernambuco, por ordem emanada do Juiz de Direito do Município de Ouricuri.

Pois é, pasme você que nunca ouviu falar na cidade de Ouricuri, no Pernambuco. A polícia daquele, lugarejo pequeno, pobre e distante, localizou o réu entre um clã de valentões, onde, sem negar a autoria dos crimes, a eles referia-se com o cinismo próprio de quem se vangloria dos seus feitos, em conversa informal com a imprensa. Lá a Justiça se fez presente, decretando a prisão preventiva do réu, que aguarda julgamento trancafiado.

Por tabela, a Justiça de São Paulo, após todo o alardeado e exaustivamente provocada que foi, pede a transferência do réu para responder pelos crimes que aqui cometeu, convencida - ao que parece - tratar-se de crime hediondo, para o qual, descabe o benefício de responder o processo em liberdade, nos exatos termos da lei.

É a nossa Justiça funcionando - aos empurrões.

UM ABSURDO!


Escrito por Fernão Paulino Netto às 21h52
[] [envie esta mensagem]



[ ver mensagens anteriores ]
 
 
 
       
   
BRASIL, Sudeste, SAO PAULO, Homem, de 26 a 35 anos, Música, Arte e cultura, porque a gente não quer só comida...







Histórico
  07/08/2005 a 13/08/2005
  24/07/2005 a 30/07/2005
  10/04/2005 a 16/04/2005
  27/03/2005 a 02/04/2005
  27/02/2005 a 05/03/2005
  05/12/2004 a 11/12/2004
  21/11/2004 a 27/11/2004
  07/11/2004 a 13/11/2004
  10/10/2004 a 16/10/2004
  29/08/2004 a 04/09/2004
  22/08/2004 a 28/08/2004
  01/08/2004 a 07/08/2004
  04/07/2004 a 10/07/2004
  27/06/2004 a 03/07/2004
  06/06/2004 a 12/06/2004
  23/05/2004 a 29/05/2004
  09/05/2004 a 15/05/2004
  02/05/2004 a 08/05/2004
  25/04/2004 a 01/05/2004
  11/04/2004 a 17/04/2004
  04/04/2004 a 10/04/2004
  28/03/2004 a 03/04/2004



OUTROS SITES
    SOU DA PAZ
  VIVA RIO
  UNICEF
  CINE
  ONU


VOTAÇÃO
    Dê uma nota para meu blog